Olá, Hélia. Tudo bem? Bom, se você chegou até aqui e está lendo esse texto sua vista já não deve estar lá essas coisas, a ortografia já deve ter feito mais mudanças e as gírias devem ser outras. Afinal, aos 60 anos as coisas podem ser completamente diferentes do que já foram um dia. Então vou tentar escrever da maneira mais clara e conservadora, dentro do possível.
No dia que você escreveu esse texto estava completando 30 anos. Você estava trabalhando como assessora de imprensa da saúde do Estado, morava com um amiga num apê bacaninha na Vila Madalena em SP, gostava de festas e amava sua família e amigos.
Levava uma vida legal, embora reclamasse muito de tudo. Sabia que era privilegiada em muitos sentidos, mas se sentia a vítima da sociedade em várias outras questões. Você não fumava há três anos, um mês e 10 dias. Bebia dia sim, outro também. Já sofria com insônia e lutava contra a balança.
Era uma mulher solteira, sem filhos, com três sobrinhas lindas e com 98% das amigas e primas já casadas e com filhos. Como recém-balzaquiana sentia a pressão para se encaixar nos padrões impostos pela sociedade e, por muitas vezes, por você mesma.
Estava sozinha, sem perspectivas de encontrar o verdadeiro amor, ter uma família de propaganda de margarina. Pior que isso, não tinha sua casa própria, nem carro, nem uma poupança polpuda. Não tinha visitado nem um terço dos lugares que gostaria ou conhecido as pessoas que precisava.
Muitas vezes se perguntava se era essa a vida que havia escolhido e outras tantas se essa teria sido a escolha certa. Desde pequena já tinha essa mania de se imaginar mais velha, de como a vida seria em 10 anos.
Aos 15 já imaginava como seria ter 25. Estaria casada, com um homem dos sonhos, com três filhos lindos, ganhando muito dinheiro como repórter de um grande jornal ou de uma revista famosa. Meus pais estariam esbanjando saúde, meus irmãos lindos, ricos e felizes com um monte de filhos e nossas vidas seriam sempre perfeitas.
Fué, fué, fué, fuéééééé. Bem-vinda a vida real.
Aos 17/18 anos eis que a vida real mostrou pela primeira vez sua cara. Do deslumbramento da faculdade de jornalismo e o meu desejo de mudar o mundo, com as palavras duras dos professores, nos aconselhando a desistir do ofício logo no primeiro ano.
Teimosa, como costumava ser, terminou o curso. Escreveu um livro junto com duas amigas e se jogou nas redações. Foi muito feliz enquanto durou. Pobre, mas feliz. Será que você ainda é tão brava como já foi um dia?
Você era muito brava até os 30 anos. E era sempre lembrada por essa característica. Por vezes, positivamente, outras vezes nem tanto. Você era explosiva e impulsiva, mas também era extremamente responsável e afetuosa com quem julgava merecedor.
Durantes esses 30 anos, Hélia, você namorou muito, se apaixonou por vários, amou poucos. Sofreu muito. Chorou de alegria outras tantas vezes. Viveu.
E de Quase 30, chegou lá. Quando escreveu esse texto, aos 30 anos, você tinha muitos sonhos, Hélia. Você queria, por exemplo, que seus pais vivessem para sempre. Que sua família estivesse sempre bem, unida e feliz.
Você queria chegar aos 60 anos tendo conhecido a Itália, a França, a Inglaterra e o Havaí. Também queria ter ido muito ao Sul do Brasil, as lindas praias do Nordeste e se embrenhado pelo Distrito Federal.
Aos 30 anos você já havia aceitado que não poderia mais salvar o mundo, mas desejava chegar aos 60 fazendo alguma diferença para sua existência. Entre os seus principais sonhos aos 30 anos, Hélia, era escrever um livro. Um romance ou drama, com uma pitada de humor sarcástico, causos do dia-a-dia e que pudesse se tornar um Best seller!
Você também queria ter uma casa bem bonita. Toda branca. Uma cozinha linda, toda branca também, com uma pia grande e boas panelas onde gostaria de cozinhar de vez enquando para sua família e amigos. Com um jardim cheio de girassóis, uma piscina não muito grande, uma área para churrasco.
Sim, você sonhava também, embora escondida, com uma família de comercial de margarina. Um marido bacana, dois ou três filhos lindos, todos felizes e vivendo em harmonia.
Será que aos 60 anos você já se aposentou? Se já, lembre-se que seu sonho era abrir uma livraria, de dois andares, com um café na parte de baixo. Passar o resto de sua vida em meio aos livros era mais que uma vontade, sempre foi seu verdadeiro objetivo, espero que tenha conquistado isso.
Se ainda não conquistou tudo isso, levanta já a bunda dessa cadeira e vá a luta. Em seus 30 primeiros anos de vida você sempre foi corajosa e determinada. Não me decepcione depois de velha.
Espero de todo coração que nossa vida tenha valido a pena e que esses 30 anos que desconhecia ao escrever esse texto tenham sido os melhores em todos os sentidos. Que as fases ruins tenham acabado mais rapidamente. Que as dores tenham passado, as feridas cicatrizadas e que a maturidade tenha nos trazido mais paciência e sabedoria.
Por fim, parabéns por ter chegado até aqui. Aos 30 anos você não acreditava muito que viveria tanto. Então que os próximos 30 anos sejam especiais para nós!
Ah, só mais uma curiosidade, será que nesses 30 anos o Corinthians foi campeão da Libertadores?!?!? Espero que sim e que você tenha assistido isso bem de pertinho!!!